
Com a volta do Forum Social Mundial a Porto Alegre, um grupo de ciclistas de São Paulo planeja pôr em prática o tão alardeado novo mundo possível e chegar lá com o modo de transporte mais sustentável e integrador já inventado: a bicicleta, claro. Veja mais em http://pedalfsm2010.wordpress.com/
Fui contatado por essa galera muito gente fina pra dar umas dicas, por um simples motivo: em 2003, um grupo de Floripa (no qual me incluo ;) teve uma ideia semelhante. Na época a bicicletada local estava com a maior participação de sua história e era grande a empolgação tanto de pedalar como de ir ao Forum inserir a discussão da bicicleta no meio urbano, até então ausente. Junte-se a isso o fato de que ciclistas de Porto Alegre queriam iniciar a bicicletada por lá, e fez-se o plano: partir num grupo auto-organizado aos moldes da bicicletada, desde Floripa até Poa, para participar do Forum e fazer a 1a. bicicletada local. O resto é história…
Abaixo, o único relato que achei da viagem, publicado por mim no CMI (mídia independente) no calor do Forum, 1 dia antes da Bicicletada de Porto Alegre – que contou com mais de 150 participantes.
12 ciclistas viajam de Floripa para o FSM
Por eduardo green short 25/01/2003 às 08:47
Durante todos os dias, o sol nos brindou com um clima que, apesar de bastante quente, ajudou nossos inúmeros banhos de cachoeira, roupas secas e alto astral.
Nos três primeiros dias, ajustando equipamentos, conhecendo os ritmos e gostos dos colegas, fomos nos aquecendo até Gravatal, nosso primeiro ponto-chave de parada, na casa do Consta, pai do Rodrigo, gentefiníssima, que nos proporcionou o primeiro banho quente da viagem, jantar, luau, café, apoio com muitos produtos naturais de sua loja Shambala e a companhia sua e de sua esposa Ceres. Foi lindo!
O grande barato da viagem foi pegarmos o caminho pela Serra que, apesar de ser aproximadamente 250 km mais longo, nos proporcionou a inesquecível subida noturna da Serra do Rio do Rastro, onde a chegada de cada membro em meio ao nevoeiro intenso foi comemorada como umavitória (são 16 km de subida, para o patamar de 1400 m de altitude).
No alto da serra encaramos o trecho mais difícil, entre Bom Jardim da Serra e Cambará do Sul, cerca de 140 km por estradas de chão com muita pedra, onde precisamos frear em muitas descidas. Foram os três dias mais difíceis, onde alguns integrantes do grupo pegaram caronas para guardar energia para os 250 km finais.
Cambará foi a única cidade em que ficamos por dois dias, num merecido descanso (para alguns!) no santuário N.S.de Caravaggio. Em toda a viagem, acampamos em locais muito agradáveis, seja próximo a cachoeiras ou de forte cultura regional, como o CTG de S.José dos Ausentes, cidade mais fria do Brasil (felizmente no inverno!), onde se iniciavao 25o. rodeio crioulo da região. Ah, se soubessem que quase todos somos vegetarianos….
Outro local muito peculiar da Serra foi uma estância semi-abandonada que usamos próxima à cachoeira dos Venâncios, em Cambará. Dormimos emuma autêntica casa de tropeiros, com direito a fogo de chão e história do “tradicionalista da Serra”, que some com aqueles que não andam a cavalo e não comem carne. Pra não dormir direito!
Para fechar com chave de ouro a passagem pelo Planalto, nos topamos descrentes com o Parque das Cachoeiras, em São Franscisco de Paula, com suas mais de 15 cachoeiras no meio dos cânions da borda do Planalto. Local para ficar mais de semana, pena que foram só algumas horas….
Não conseguimos ver tudo que queríamos, como os cânions de Cambará do Sul (pela serração), a cachoeira dos Venâncios (por causa de um temporal), as águas termais de Gravatal, Gramado e Canela e muitos outros lugares perto do nosso caminho.
Com certeza vivenciamos intensamente esses locais e de seu povo, que nos recebeu com muito carinho. Claro que viramos o comentário das cidades onde passamos! Uma viagem de 12 dias, onde gastamos em média 10 reais por dia cada um, conhecemos de forma barata e próxima a cultura local, bebendo de sua água, dependendo de seus habitantes para as coisas mais básicas (local para dormir, comida, banheiro, água) e por isso mais essenciais.
Dentro do grupo também houve muita troca de experiências, não só dentro do mundo de bicicletas e acampamentos, como de seus conhecimentos individuais (comunicação, biologia, engenharia, nutrição, música, marketing, medicina, etc.). Parece que nesses doze dias, ajudados pelo isolamento, o tempo parou e o mundo era o grupo, nossa casa estava nas costas e o destino esteve em nossas pernas.
No final, ao chegar à confusão do trânsito de POA e de 30.000 acampados no Forum Social Mundial, foi ainda maior o choque depois de tantos dias tranquilos e convívio quase familiar entre o grupo. Porém o momento é
outro, também muito intenso, de encontro com dezenas de movimentos socias, tão diversos como os faladores do esperanto, os anti-energia nuclear ou da resistência negra.
O movimento da bicicletada mostra que o meio de transporte com menor impacto e mais viável para as grandes cidades é com certeza, aliado a outras formas de deslocamento, a bicicleta. A bicicletada de domingo, dia 26/1, às 9:00 no brik da redenção, mostrará que muitos moradores de POA, assim como de São Paulo, Brasília e Desterro, já enxergam a bicicleta como um importante meio de transporte nas cidades médias e grandes do BRasil.
Obrigado a todos que nos ajudaram a concretizar essa linda viagem e torço para que muitas outras, feitas por cada vez mais pessoas, estejam por vir.



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