Pausa pra… descanso?

Vida de ciclista não é só pedalar, bem como a vida nômade é mais que simplesmente pular de um lugar ao outro. Desde junho passado minha rotina tem sido apreciar novos horizontes, ao lado de novas pessoas, os locais passando como instantâneos, quase fotografias.

Já houve momentos de estar mais quieto, como em Portland e San Francisco, mas sempre pulando de casa em casa, em tempos relativamente curtos, em cada cidade menos de um mês. Até agora, a única situação de perceber mudanças em um local foi estar em SF no verão – super gelado, dois casacos, luva, gorro – e novamente no outono, dessa vez mais agradável, sol batendo.

Na Nova Zelândia, fui nômade desde o começo, o lugar onde mais fuquei foi Coromandel, por looongas duas semanas ;) De lá, muito pedal até a Ilha do Sul, onde novamente parei por duas semanas em Motueka, onde estive em um retiro de meditação.

Dali novamente pé na estrada, na viagem de um mês por Bali não esquentei uma cama por mais de três dias… o que foi muito bom, pra conhecer a ilha e seu povo.

De volta à Nova Zelândia, era hora de trabalhar. Ao reencontrar Engelbert, amigo que conheci pedalando na Costa do Oregon/Eua, veio o trampo: colher maçãs. Desafio nada fácil: 25 mangos pra cada caixa de maçã – 400 kilos de frutos do coração. É maçã do despertar ao anoitecer, bastante dor nas costas, compensada pelo dindin no bolso – e uma grata sensação de estar sendo produtivo. Afinal, estar só curtindo é legal, mas também cansa. É sério :P

Mais uma caixa! by you.

Mas havia algo mais sutil que a necessidade de trabalho. Ter uma rotina, criar laços mais profundos com pessoas, poder sentir-se em casa, já saber que caminho pegar e onde estão os copos, deitar numa cama quentinha…

Numa manhã bela, fria – e solitária – colhendo maçãs, o telefone tocou. Era Visnu, amigo do Vistara (local onde ocorreu o retiro) me chamando pra trabalhar em outra fazenda.  Poderia morar em uma casa ao invés do trailer em que estava, praticar meditação todos os dias, partilhar refeições, acender a lareira.

Larguei na hora minha bolsa de colher maçãs, pedalei os 25 km que me separavam da nova fazenda e mesmo inicando às 11 da manhã, naquele dia colhi 4 caixas, em um tempo bem menor que no local anterior. Quando no sentimos bem, tudo flui melhor…

As três semanas que passei na primeira fazenda levaram décadas a passar… já as mesmas três, trabalhando em um lugar legal e morando junto a amigos, foram como um piscar de olhos. Eis que chegou a hora de partir, cada minuto um novo visual, sentir novos cheiros e ver novos rostos.

rio Motueka by you.

O tempo em Motueka me preencheu com a sensação de pertencer a um lugar.  Ver as estações passarem, no verão derreter de calor e pular no rio, no outono me arepiar de frio e acender a lareira. Ver as montanhas receberem a primeira neve e as árvores mudarem do verde para o amarelo e vermelho, se despirem.

Me chamou a atenção um texto de Eduardo Galeano,  diz mais ou menos que

A utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois …
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
… para que eu não deixe de caminhar!

Eis que a utopia me chama novamente, três meses após chegar à região mais ensolarada da Nova Zelândia, tempo esse que trouxe algumas trovoadas, arco-íris na lua cheia, o céu mais estrelado que já vi e muito sol, sol! Parto rumo oeste, sul.. pra região mais chuvosa e fria do país, agora é tempo de ver os glaciares, fiordes e claro, viajar de bicicleta.

Hey! by you.

Vou pedalar pra alcançar a utopia!

p.s – pra ver fotos, veja  o post anterior

4 comentários para “Pausa pra… descanso?”

  1. mari (globs) disse:

    sei quenao é necessario dizer, mas digo mesmo assim : aproveite meu caro! continuo acompanhando suas viagens! o q me alegra!
    super beijo!

  2. Tati disse:

    Dudu,
    dá pra sentir o cheiro das suas aventuras (e alguns dissabores) por esses cantos do mundo. A Ilha do Sul deve estar linda com as árvores avermelhadas e vc curtindo essas mudanças… (de fora e de dentro). Admirável que vc tá indo ao encontro do frio e da chuva! Resolveu enfrentar os monstinhos? Viajar é um tesão, mas também não é moleza. Bom, a gente compartihou de muitos desses momentos juntos – falamos a mesma língua- e eu sou muito grata por termos sidos parceiros dessa aventura de tantos sabores. Voe querido, com paz e amor, por onde quer se esse mundo te leve. Eternamente no meu coração.

  3. [...] Do ciclonomade: “Vida de ciclista não é só pedalar, bem como a vida nômade é mais que simplesmente pular de um lugar ao outro. Desde junho passado minha rotina tem sido apreciar novos horizontes, ao lado de novas pessoas, os locais passando como instantâneos, quase fotografias.” (cont…) [...]

  4. Francileno nascimento dos Santos disse:

    Quero te parabenizar irmão pela sua atitude e coragem! Não conheço você, mas já estou torcendo pelo seu sucesso. O grande sonho da minha vida é fazer exatamente isso sair para explorar o mundo, um dia quem sabe! Fica com Deus, um grande abraço!

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