Dias Turcos

Semana passada estive na Turquia, participando do congresso Towards Carfree Cities, para a promoção de alternativas ao transporte urbano com automóvel, que se mostra cada vez mais inviável. Foram 5 dias de apresentações, debates e confraternizações, é claro, com pessoas de quase 20 países (Brasil, Inglaterra, Alemanha, Espanha, França, Turquia, Bósnia, Sérvia, Croácia, Hungria, Holanda, Bélgica, Grécia, Portugal, etc). Pena que a grande maioria era da Europa, não havia ninguém da Ásia ou África… o relato é meio grande, mas à altura de tudo que foi aquilo!

A primeira impressão ao chegar a Istanbul (com N mesmo, só em português tem M) é de familiaridade. Depois de três semanas na Alemanha – em que por um lado tudo é super organizado, por outro às vezes demais, chegando a parecer irreal – me senti por muitas vezes em casa. A cidade, espalhada à beira do estreito de Bósforo, com 12 milhões der habitantes, me fez lembrar muito do Rio de Janeiro e São Paulo. Lixo pelas ruas e carros buzinando são o lado ruim da moeda, compensados pelo calor do povo e do ambiente – nisso realmente lembrou o Rio.

As semelhanças não param por aí, mas há também as diferenças. Palco de séculos de história da humanidade, impressionam a quantidade de castelos, mesquitas e outros edifícios históricos. Nisto parece a Alemanha… mas não nos cachorros e gatos que se vê nas ruas – estes são muitos, deu a maior saudade do Manchinha.. :( , na grande diferença social, presença de polícias e câmaras. Como no Rio os barcos são muito usados, até mais, há um tráfego intenso desses que são uma parte importante do sistema de transporte da cidade. Nessa quesito, nada como a extensa rede de metrôs, trams, s-bahns, u-bahns, bondes que existem em qualquer cidade média da Alemanha – Stuttgart, 600 mil habitantes, tem 21 linhas de metrô e bonde, Istanbul, 12 milhões, tem 5….

Nesses dias, usei todo tipo de transporte: ônibus novos e velhos, de dois andares, de fretamento, bonde, trem, funicular, táxi, barcos carona e até mesmo carro de polícia – calma, os brasileiros não foram presos! É que em um dos dias, nos atrasamos e perdemos o ônibus para o local itinerante do congresso. Fomos de trem, mas o só bairro onde acontecia o evento tem 800 mil habitantes! Resultado, foi a maior lenda achar algué que falasse inglês, ainda mais o local certo… os homens da lei, exímios conhecedores do local, nos levaram para uma “voltinha” de uma hora procurando o mesmo local de onde tínhamos saído… :)  Inexplicavelmente, a bicicleta é muito pouco usada em Istanbul, até muito menos que em São Paulo. Apesar do tânsito louco, calor e alguns morros, pode-se levar a magrela nos trens e barcos, e estranhei as pessoas não optarem por ela.

Durante o encontro, fizemos algumas saídas, um misto de turismo e contato com a realidade da mobilidade local. Andamos a pé pelos calçadões do centro, passamos por prédios do século 14, pelo Mercado de Temperos do séc. 17, fomos às ilhas em que praticamente não há carros. São 80 deles, só para serviços, em uma população que flutua entre os 10 mil fixos a 1 milhão nos fins-de-semana! Os cavalos e bicicletas dão conta de toda essa gente, e claro que não podíamos deixar de conhecer a ilha inteira de bici (uns 30 km) de bici, com direito a uma parada pra cerveja. Em um dia, em meio às apresentações curtimos o fim de tarde junto ao estreito de Bósforo, uma incrível experiência estar na Europa e ver a Ásia se ruborizando.

Tivemos muita sorte com o clima. Apesar de algumas horas estar quente demais, na maior parte do tempo o sol nos acompanhou, o que facilitou as idas e vindas. Durante o dia, sempre tínhamos apresentações de palestras, seja dos pesquisadores e políticos locais, seja dos participantes do encontro. Temas variados como revitalização dos centros, redução de emissão de poluentes, promoção da bicicleta, estruturas de lazer, cultura individual x coletiva, grandes obras, criação de mapas de ciclovias, estacionamentos, ação direta, planejamento integrado e outros se uniam na intenção comum de transferir o espaço das cidades que hoje é ocupado pelos automóveis e devolvê-los às pessoas. No último dia do encontro houve o encontro anual do World Carfree Network, a rede de Ong’s e pessoas que organiza a conferência, e entre outras decisões tomadas, fui eleito junto com a Steph de Portland, Eua (onde será a próxima conferência) e Meltem da Turquia, para completar o Steering Comittee – grupo de pessoas que decide as diretrizes da rede. Muito legal!

À noite, quando não havia programação oficial, apoveitávamos que a maioria estava em albergues próximos e continuávamos as conversas, agora regadas a cerveja e fumo de maçã no narguilé, no terraço com vista para o estreito. Naturalmente, eu o Thiago (de São Paulo -

apocalipse motorizado ), os brasileiros da conferência, ficamos mais próximos da galera do leste europeu – Milan e Jadranka da Sérvia, Tiho e Natasha da Bósnia – que vivem uma realidade mais próxima de nós, assim como na Turquia. A comida é super apimentada, mas deliciosa!

Bem galera, é isso. Agora estou de volta à Alemanha, por um lado fico com saudade, pessoas muito legais, não tive tempo de ver quase nada fora da confereência, pois a programação foi super intensiva, fica pra uma próxima. Eu iria ficar mais dois dias, mas acabei voltando ao final do encontro pois fui à feira EuroBike em Friedrichshafen, sul da Alemanha. Mas essa história fica pro próximo post.. :D

Como resumo, recomendo 1000% conhecer Istanbul. Não se prendam aos preconceitos e ao que já ouviram de lá, a cidade é surpreendente, um pouco pra ruim e muito pra bom! Da próxima vez que passar por lá, quem sabe na volta ao mundo que

ainda farei, terei muito o que ver! Na último momento coletivo, quando estávamos no terraço de um restaurante em Taksim, ao som de música local, me despedi do grupo ouvindo todos cantando a Aquarela Brasileira “Brasil, Brasil….lá,lá,lá…” – emocionante!

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